A noite em que quase fui assassinado (ou não)

Nunca fui um cara de beber e, não à toa, aos 23 anos de idade, posso afirmar, com olhar de desdém, que ainda não sei o que é ressaca. Por muito tempo, afinal, resisti bravamente aos etilicamente impuros, que tentavam, a todo custo, me levar para o lado bebum da força. De algum modo, eu sabia que bares não eram feitos para mim e eu simplesmente os evitava. Apesar disso, no entanto, de alguma forma misteriosa, que só Murphy poderia explicar, justamente naquela noite fatídica de 2.006, me deixei levar para aquela mesa bar, na Zona Sul de São Paulo. Cheguei até lá carregado pelo meu primo e duas amigas dele, pessoas já experientes na arte de levantar copos, que tinham por objetivo principal mostrar àquele capiau de olhos puxados as maravilhas alcóolicas da capital paulista. Mas aquilo não daria certo, era óbvio, e eu bem poderia ter desconfiado. Afinal, para um jovem de 17 anos, que só pensava “naquilo”, qualquer lugar que não possuísse luzes vermelhas e mulheres com roupas minúsculas deveria levantar suspeitas. Isso se eu não fosse tão ingênuo, claro.

Bom, de qualquer modo, eu estava lá e, como era de costume, não estava bêbado e nem pretendia estar. Isso era um erro, eu logo descobriria, mas eu não poderia prever. Afinal de contas, eu nunca sei quando Murphy, com seu exército de espíritos zombeteiros, entrará em ação para tornar a minha existência um espetáculo de comédia. É sempre um mistério e, sendo assim, eu não poderia ter ficado menos surpreso ao ver aquele homem chegar, em frente ao bar, com sua pistola negra e volumosa na mão (medo!). Não era um tarado, nem nada do tipo, mas estava armado e também era perigoso. Não por pouco, quando vi a cena, entrei em estado de cagaço e meu corpo não demorou pra dar sinais. A contração foi imediata — o que era grande ficou pequeno, e o que era pequeno desapareceu.

Está certo que, quando se está diante da morte, um macho que se preze não perde a pose; ele engole o choro e enfrenta o perigo, ainda que isso lhe custe a vida. Mas confesso que não pensei nisso naquela hora. Pra falar a verdade, desesperado, só devo ter pensando em gritar, chamar minha mãe ou correr feito uma gazela em estado de parto — o que seria inútil. O local era fechado e não tinha como fugir da chacina que estava para acontecer. Sem alternativa, o melhor, portanto, era tentar me acalmar. Afinal, se eu ia mesmo morrer, eu tinha que morrer como um macho. Cagado, sim, mas ainda um macho.

Para me acalmar, diante daquela cena assustadora, eu poderia fazer uma retrospectiva da minha vida, tentando me agarrar a momentos felizes, ou então imaginar coisas inspiradoras, como anões dançando “macarena” na chuva… Mas isso era impossível. Primeiro porque estava morrendo, e não meditando ou usando drogas. Segundo porque qualquer pensamento positivo era inútil diante da triste e cruel realidade: eu ia morrer. E PIOR: virgem. CÉUS, isso mesmo, VIRGEM! Por acaso, alguma vez na vida você já morreu virgem? Eu não, mas, de qualquer forma, acredito que seja algo desagradável, e eu não recomendo a nenhum pai de família.

Enfim, seja como for, eu estava ferrado e manter uma postura máscula não era algo fácil. O panorama da situação era absolutamente desesperador. Em questão de segundos, uma bala atravessaria meu delicioso, porém intocado, corpo, levando consigo para o além todo o vigor e gostosura que viriam a me consagrar anos mais tarde. Eu já podia prever pessoas de todo o Brasil entrando no meu orkut para escrever mensagens de conforto do tipo “descanse em paz”, “que desperdício” e “foi tarde”. O momento era realmente triste. Depois de 17 anos de vida regrada, eu morreria virgem, indefeso e jogado numa mesa de bar. Não à toa, naqueles segundos que se arrastaram, mulheres de todas as origens, cores, raças e credos pressentiram que algo terrível estava prestes a acontecer. Seria o fim precoce de uma lenda, e lágrimas percorreram o rosto de mulheres desvairadas mundo afora.

Não tinha como lutar contra o mal que se aproximava, e eu já estava entregue, meio que preparado para “a passagem”. Mas a vida, como já dito por aí, é uma caixinha de surpresas, e justamente quando não havia mais esperança, de forma misteriosa, aquela luz surgiu. Com ela, uma voz imponente, de forma reconfortante, bradou: VAI, TODO MUNDO PRA PAREDE, P@RR%! AQUI É A POLÍCIA!

Sim, não era exatamente um milagre, mas eu me sentia aliviado. Afinal de contas, meu corpo puro e cristalino sairia intacto daquela noite tormentosa. Eu estava, quem diria, a salvo e isso era motivo para comemorar. Mas a vida… A vida não é um conto de fadas, e eu descobriria, a duras penas, que aquela noite estava longe de terminar… Mas isso é assunto para próxima semana, num outro post, porque este já está longo demais. =)