A noite em que quase fui assassinado (ou não) – O confronto final






Quando nasci, nos idos de 1.988, ninguém imaginaria que aquela criatura cabeçuda, de olhos puxados e pingulinho minúsculo, poderia, no futuro, representar algum perigo às mulheres. Com muito esforço, no entanto, após o crescimento cientificamente inexplicável de algumas partes do meu corpo (estou falando da minha barriga, crianças), mostrei, na calada da noite, o meu potencial lesivo, dando a mulheres desiludidas de todo o país motivos para sorrir, cantar e acreditar num futuro melhor.

Apesar disso, em outros aspectos da vida, continuei a ser considerado um merdinha, cuja única conduta reprovável, realmente capaz de assustar alguém, foi ter conseguido a façanha de quase me matar com uma lambreta (?). Sim, porque, na escala da maldade, uma cabrita perneta provavelmente ofereceria mais perigo do que eu. Não que eu fosse o ser mais puro do mundo, destituído de qualquer maldade ou malícia, mas o fato é que, em termos criminais, nunca fui considerado uma ameaça.

Não à toa, sempre passei despercebido por batidas policiais e coisas do gênero. Não sei dizer ao certo o motivo disso, mas, agora, pensando bem, desconfio que só havia uma, dentre três possibilidades: a) eu era rico e influente; b) eu tinha cara de nerd, virgem e um corpo tão musculoso quanto o de um frango em crise aguda de diarréia, ou; c) eu era o Chuck Norris. Bom, isso é algo que nunca saberei. Mas, de todo modo, o importante é que eu estava acima de qualquer suspeita e, não por menos, quando vi aquele monte de viaturas policiais tomar a rua, naquela fatídica noite, minha voz embargou — me senti emocionado, reconfortado e um pouco mais homem. Me senti, enfim, livre.

Finalmente, após enfrentar com uma coragem épica aquela situação dramática e perigosa, eu poderia gritar para todo mundo ouvir que a lenda ainda estava viva! Que havia esperança, havia potência e havia amor! Eu poderia, enfim, sentir o ar da vida preenchendo meus pulmões novamente. Mas a vida, a vida é uma put@ falta de sacanagem. E, ao invés disso, o que senti foi uma sensação desconhecida, que, de forma repentina, percorreu todo o meu corpo…

Encostado ao muro, com as mãos para cima e pernas abertas, senti um policial apalpar áreas nunca dantes exploradas. Meu eusébio continuava intacto, mas, naquele momento, me senti violado. Era, afinal de contas, meu primeiro contato com a opressão estatal. Desorientado, vi policiais gritando, esfihas voando, luzes piscando e, em câmera lenta, cenas de telejornais e noticiários do Rio de Janeiro invadiram minha cabeça. O cagaço, então, se instalou novamente. E assim, ao sentir a mão do policial próxima ao bolso da minha calça, fiz aquela que pode ser considerada umas das maiores burrices da minha vida. Olhei para o policial e disse: — aí só tem dinheiro, senhor. A resposta foi carinhosa e instantânea: um tapa na fuça, acompanhado de “está achando que alguém aqui quer o seu dinheiro, seu moleque?”.

Imediatamente, senti algo em mim esquentar — e não era apenas a minha orelha. Era a revolta. A raiva. Afinal de contas, como cidadão brasileiro, eu tenho direitos constitucionalmente garantidos e aquilo não poderia ficar impune, não poderia ser em vão. Eu deveria lutar. Ser a esperança dos mais fracos. A voz dos oprimidos. O rosto desse povo sofrido. E todos se lembrariam da minha guerra. Da minha história.

Pensei, então, em mandar o policial bater mais forte, porque, afinal, “aqui é Corinthians, mano!”. Mas me contive e, bravamente, como um símbolo da resistência, respondi, :

– Desculpe, senhor! Não foi minha intenção. Desculpe! Eu não quis dizer isso.

Desconsertado, o agente opressor, em sinal de respeito e temor, olhou para o meu rosto de Jaspion anêmico e recuou. E, assim, aquela noite virou história. A história virou lenda. E hoje, em butecos e vilarejos distantes, sou conhecido como “aquele que apanhou da polícia”. É, me tornei um mártir, bebê.

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Escrito por Mário Yanase, em 12 de dezembro de 2011

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10 comentários

  1. O súmido, finalmente deu o ar da graçã novamente, como sempre excelente texto, deu muita risada , só voce mesmo para escrever desta forma, acho até que deveria escrever um livro com esses contos, muito bem escrito, vamos lendo e o filme vai passando em nossas mentes, como ja disse o Julinho mazzei no passado o radio é o teatro da mente, digo também que a leitura é o teatro da mente que enquanto lemos parece estarmos nos acontecimentos, parabéns japa, abraços,
    Reinaldo Lima

  2. Reinaldo Lima, muito obrigado!

    Muito motivador o seu comentário. E é por essas e outras que continuarei a escrever por muito tempo ainda. Só não digo que escreverei um livro, porque, sabe como é, o editor certamente me acharia um escritor um pouco lento. Mas, pensando bem, quem sabe, né? Se o mercado editorial pagar um bom cachê, tô aí, livre e desimpedido. rsrs

    • Estou aqui pra isso. Afinal de contas, como não consegui ganhar dinheiro com meu sofrimento, criar um blog não poderia deixar de ser uma boa ideia. Assim, o povo pode rir e ter a certeza de que que existem pessoas como eu, sofridas, oprimidas, porém cheirosas e limpinhas, que merecem reconhecimento. =) kkk

  3. Conhecendo o contexto de watha hell você foi parar em um bar que tenha possibilitado essa inusitada situação, eu digo: KKKKKKKKKKKKK agradeça, pois poderia ter sido bem pior!!!!!!!

    • Pois é, minha linda, você sabe bem o drama que passei e, por isso, não se surpreende quando eu digo, com a voz embargada, que lutei muito para estar aqui. Quem me vê andando gostoso por aí, não vê os tapas que tomei. kkk

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